Synduality: robôs, androides e melancolia

Detonado por muitos jogadores em seu lançamento, Synduality é um Extraction Shooter incompreendido, mais ou menos.

Enquanto navegava pelas promoções de fim de ano 2025 da loja do Xbox, me deparei com Synduality: Echo of Ada um jogo que há muito estava na minha lista de desejos, apenas aguardando uma promoção para um preço que considerasse tolerável pagar. 

Começando com o pé errado

Após comprar o jogo, fui logo abri-lo para testar. Qual não foi a minha surpresa quando descobri que se tratava de um jogo 100% online? Sendo que um mês antes eu havia cancelado minha assinatura do Game Pass sem a menor intenção de renova-la por um bom tempo, motivado pelo aumento obsceno de preços executado pela Microsoft em outubro.

Indignado, pedi o reembolso e comprei qualquer outra coisa que me interessava, mas este não foi o fim desta história de amor. Foi apenas o começo.

Ainda indignado com a situação, busquei mais informações acerca do jogo. No geral, é consenso entre os jogadores que os trailers enganam, pois parece prometer uma experiência narrativa densa que não é experimentada no jogo. Além disto, muitos criticavam também o loop de gameplay repetitivo oferecido.

Após uma boa pesquisa, as informações coletadas apontavam para o reembolso como uma decisão acertada. Meu espírito rebelde, entretanto, queria colocar à prova todas essas informações. Antes do fim de dezembro, eu já havia assinando o plano básico do Game Pass e comprado o jogo novamente. Desta vez, ciente do que esperar.

Um extraction shooter diferente

Em Synduality a missão do jogador é explorar, sobreviver e desvendar um mundo de ficção científica pós-apocalíptico em que a chuva, por algum motivo misterioso, se tornou tóxica apenas para os humanos, que foram forçados a migrar para o subterrâneo para sobreviver. O jogo, entretanto, se passa ainda mais tarde, após o colapso até mesmo da cidade subterrânea de Amasia.

Como um Drifter, o jogador se aventurará na superfície infinitamente em busca de recursos, utilizando o seu robô CRADLECOFFIN, para explorar o ambiente hostil com a ajuda de seu Magus, um androide com IA avançada que, além de auxiliar no controle e interface dos Cradles, servirá também como sua única parceria e companhia de verdade neste mundo.

Ao explorar a superfície como um Drifter membro da Drifter Support Association, o jogador é incumbido com sua principal missão: escavar e coletar cristais para geração de energia. Esta será uma das principais fontes de renda do jogador, que ao retornar para o subsolo receberá recompensas em dinheiro de acordo com o tamanho e grau de pureza dos cristais entregues à associação.

Além da DSA, os Drifters também serão contatados por outras associações, que disponibilizam diferentes requisições para serem completadas nas idas para a superfície, como investigações atrás de relíquias do passado, que recompensam os jogadores com informações de eventos históricos.

Seja qual for a intenção do jogador ao subir à superfície para explorar, será coletado bastante loot, afinal, este é o principal elemento do loop de gameplay: coletar itens e retornar com eles para sua base em segurança. O loot aqui, não são armas ou coisas do gênero, mas materiais para criação de itens: armas, cradles, mas acima de tudo: materiais para o desenvolvimento de sua base (ou garagem, como preferir).

Desenvolvendo a base, os jogadores desbloqueiam cada vez mais funções que o ajudarão ao longo da progressão do jogo, além de mais opções de fabricação e a capacidade de fabricar mais itens ao mesmo tempo. Também é possível desenvolver a base para que se torne mais aconchegante para nosso Magus, o que também desbloqueia novas funções da base.

Tensão, perigo e combate!

Caminhar pela superfície não é tarefa simples e exige bom planejamento. Ao navegar pela terra inóspita, além dos diferentes monstros que lá habitam, os jogadores também correm o risco de se encontrarem uns aos outros, onde a única forma de comunicação é através de gestos pré-definidos ou agressões gratuitas: confiar em outro jogador pode ser fatal.

Durante as expedições, também é possível encontrar bandidos, Cradles controlados pela IA do jogo e que com certeza atacarão o jogador ao encontra-lo. Estes bandidos possuem diferentes graduações e, normalmente, há um chefe ou dois espalhados no mapa, inimigos poderosos e que estão sempre acompanhados, mas que garantem uma ótima recompensa ao serem derrotados.

Entre um cristal e outro, mais ainda do que bandidos, o jogador encontrará os Enders, monstros mutantes nascidos da chuva tóxica que assola o mundo. Estes possuem diferentes tipos e graduações, mas comportamentos muito mais simples se comparados aos Cradles, na maioria dos casos.

A jogabilidade é pesada e bastante regrada, é possível andar, "correr", pular, esquivar, atirar e golpear com nosso Cradle. Todas as ações mencionadas, exceto andar e atirar sobrecarregam o robô e, se forem utilizadas repetidamente em pouco tempo irão sobreaquece-lo, incapacitando-o e limitando a movimentação apenas a atirar e andar por um breve período.

Momentos de tensão em combate não são criados por mecânicas de gameplay, mas simplesmente pela dificuldade elevada do jogo, não há muitos elementos que forcem o jogador a se colocar em risco, mas a recompensa por enfrentar bandidos e monstros mais fortes costuma valer a pena.

O loop de gameplay é sustentando pelo grinding por recursos e dinheiro, conquistar equipamento bom é uma tarefa difícil e demorada, coletar recursos o suficiente para melhorar a base, também. Basicamente tudo no jogo é árduo, de certa forma, seja em combate, exploração ou coleção.

Este ardil é um dos pontos mais fortes do jogo, pois recompensa o jogador por jogá-lo, de fato. Sem tirar nem pôr, quanto mais se joga, mais forte se fica. Mesmo com battlepass e moedas premium disponíveis para compra e com itens exclusivos, o jogo não se torna pay2win. Inclusive, mesmo comprando o battlepass, é necessário grindar bastante para conquistar as recompensas disponíveis por ele, onde se destacam as cosméticas para nosso Androide, mas também equipamentos de altíssima qualidade, que para serem feitos ''na marra'', demandam itens raros.

Live Service e Endgame

O fato de ser um jogo como serviço fez muita gente torcer o nariz no lançamento, eu mesmo, quando comprei o jogo pela primeira vez, não fazia ideia de que era uma experiência totalmente online, com temporadas e afins. Como mencionei antes, minha decepção foi enorme, mas eu nem mesmo havia chegado a jogar o jogo.

Agora, com aproximadamente 60h (e com MUITA coisa por fazer ainda) de jogo no momento em que escrevo estar review, me sinto seguro para dizer: se trata de um ótimo jogo. Tem seus tropeços, mas, incrivelmente, eu não diria que eles se dão por causa da ideia de jogo como serviço estar empregada, mas sim por aspectos técnicos e de direção.

Como mencionei acima, o jogo possui o battlepass que é renovado a cada temporada, mas para além disto, as temporadas trazem conteúdos bem legais ao jogo, como áreas novas, efeitos novos, mas principalmente, novos chefões de raid. Inimigos gigantes que demandam vários jogadores muito bem equipados para serem abatidos.

Embora seja claro que, em algum momento o conteúdo se esgote para o jogador, para o qual restará apenas aguardar a próxima temporada, é inegável também que para alcançar este ponto, ele precisará jogar muito por muito tempo.

Eventos coletivos também agitam a comunidade de jogadores, pois dão recompensas muito boas. Os desenvolvedores, regularmente, oferecem eventos com diferentes objetivos para que os jogadores busquem ao ir a superfície, como coletar tipos de itens específicos, matar chefões, matar monstros etc. Ao fim do período do evento, todos os jogadores são recompensados com base no desempenho alcançado.

Melancolia, solidão e ação

Ao assistir os trailers, a impressão que tive é de que seria um jogo com um foco maior na narrativa, na solidão e na apreciação da decadência, em um jogo inspirado pela filosofia Wabi-Sabi, de maneiras semelhantes à Shadows of The Colossus, Nier e até mesmo Dark Souls.

Apesar do choque que ao se descobrir que se trata de um jogo serviço, totalmente online e praticamente 100% PvP, após um bom tempo jogando, percebe-se bem esta abordagem estética muito presente no universo criado pelo jogo para desbravarmos e na maneira como interagimos com ele.

Caminhando por um mundo há muito caído, utilizando equipamento que, com certeza, irá ser descartado em algum momento. Nossos robôs possuem marcas, riscos de uso, são máquinas brutas e pesadas, confeccionadas em metal. Nestas observações é possível comparar Synduality com os jogos que mencionei acima: a solidão e o peso de restar após o fim.

Correr atrás de ''relíquias do passado'', que em sua maioria são simplesmente objetos simples do dia-a-dia de antigamente, mas que encantam os habitantes deste mundo pós-apocalíptico. São elementos que reforçam esta visão.

O jogo entretanto, não apenas neste aspecto, mas também em tantos outros, sempre deixa o jogador com a sensação de que poderia aproveitar melhor suas qualidades, ou simplesmente ser mais esmerado em determinados pontos.

Por exemplo, a melancolia dos cenários, contrasta com a dinâmica relativamente acelerada das partidas, garantida pela forma como o robô se movimenta em todos os terrenos. Um detalhamento maior na passada das máquinas, por exemplo, uma cadência ainda menor na movimentação e ainda mais ''peso'' na jogabilidade com nosso robô garantiriam maior atenção aos arredores, por exemplo. Mas isto é apenas uma dentre muitas outras possibilidades que não mudariam o jogo por completo.

Um jogo para ficar contigo


Em suma, Synduality: Echo of Ada é um extraction shooter de dificuldade acentuada, com fortes características típicas de jogos online japoneses, principalmente no que tange a progressão, com grinding fortíssimo e recompensas muito bem dosadas. 

Elementos de customização são relativamente limitados, mesmo considerando os itens pagos. As atividades que realizamos podem variar de temporada para temporada do jogo, cada uma contando com mapas novos, chefões etc. Entretanto, isto é reservado apenas aos jogadores mais dedicados, a progressão lenta termina por reservar o conteúdo de temporada apenas para os drifters mais dedicados. 

Claro, não podemos desconsiderar o fato de que se trata de um jogo feito para ''ficar'' com o jogador por muito tempo, sempre sendo revisitado ou tido como parte de uma rotina, como um jogo de conforto, mesmo.

Ainda assim, por mais que se goste do jogo, em alguns momentos, teima em surgir o pensamento: talvez se fosse assim, ou talvez se fosse assado...

Disponível para:Steam, XS/PC, PS5
Desenvolvido por:Game Studio Inc.
Publicado por:Bandai Namco Entertainment
Lançado em:Janeiro/2025
Gênero:Ação, Tiro em Terceira Pessoa, Extraction

Speedsmelton

Jogo e escrevo sobre videogame. Nas horas vagas trabalho como CLT. threads youtube

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